A ACT lançou uma microcampanha de sensibilização sobre a exposição a riscos biomecânicos e lesões musculosqueléticas. A redução das LMERT e, em geral, das doenças profissionais, exige o envolvimento ativo de todos os agentes do mundo laboral.
As LMELT continuam a ser o problema de saúde relacionado com o trabalho mais prevalente na Europa. Estão associadas a movimentos repetitivos, posturas forçadas, esforços físicos intensos e à movimentação manual de cargas. Em termos europeus, cerca de 3 em cada 5 trabalhadores referem queixas músculo-esqueléticas—principalmente dorsalgias e dores nos membros superiores.
Porque é que isto importa
- Impacto humano: dor crónica, limitação funcional e pior qualidade de vida. NCBI
- Impacto organizacional: absentismo, rotação de pessoal, quebra de produtividade e custos indemnizatórios.
- Obrigação legal: em Portugal, o Regime Jurídico da Promoção da Segurança e Saúde no Trabalho (Lei n.º 102/2009) impõe a avaliação e prevenção de riscos, formação e vigilância da saúde; o DL n.º 330/93 estabelece requisitos específicos para a movimentação manual de cargas (evitar quando possível; organizar o trabalho e fornecer meios mecânicos).
Fatores de risco biomecânico a vigiar
- Esforço (força aplicada, peso da carga).
- Postura (desalinhamentos, torções, flexões, trabalho acima do ombro ou abaixo do joelho).
- Repetitividade (ciclos curtos, tempo de recuperação insuficiente).
- Duração/exposição (tempo contínuo na tarefa, pausas).
- Condições físicas (vibrações, frio, superfícies irregulares).
Nota prática: O DL 330/93 usa valores de referência para “carga demasiado pesada” (≈ >30 kg em operações ocasionais e >20 kg em frequentes); são critérios de alerta que devem desencadear controlo técnico/organizacional. Diário da República
Setores e tarefas típicas
- Armazém/logística, construção, indústria transformadora, limpeza, saúde e apoio domiciliário, agricultura e retalho (picking, empacotamento, transferência de doentes, empurrar/puxar carros/trolleys, abastecimento de linhas, caixas repetidas).
Como atuar — guia em 6 passos
- Mapear tarefas críticas
Levante operações com esforço, posturas extremas, repetições elevadas e queixas anteriores. Envolva supervisores e trabalhadores. - Medir a exposição
Registe tempos de ciclo, alcances, alturas, pesos e frequência. Fotografe/filme com consentimento para análise postural. - Avaliar o risco com métodos reconhecidos
Utilize ferramentas observacionais adequadas ao tipo de tarefa (p. ex., RULA, REBA, Strain Index, OCRA). São métodos validados e de aplicação relativamente rápida na linha. - Eliminar/reduzir o risco na fonte (hierarquia de controlo)
- Engenharia: mecanizar elevação/transporte (talhas, elevadores de vácuo, mesas elevatórias); reduzir o peso unitário; adicionar pegas às embalagens; ajustar altura de bancadas e paletes; reposicionar materiais para a zona de conforto.
- Organização: rodízio de tarefas, pausas ativas planeadas, dimensionamento de equipas para tarefas de duplas; planeamento de picos.
- Pessoas: formação prática (técnicas seguras, uso de auxiliares), regras de pedido de ajuda.
- Formar e capacitar
Formação específica para cada posto, com foco em técnicas de pega/elevação, sinais de fadiga e reporte precoce, conforme obrigações da Lei 102/2009. Diário da República - Vigiar e melhorar continuamente
Integre indicadores e reavalie após mudanças no layout/processo. Envolva a Medicina do Trabalho e os trabalhadores na deteção precoce de sintomas. Diário da República
Check-list rápida (10 medidas de impacto)
- Limitar pesos unitários e dividir cargas acima dos limiares de referência. Diário da República
- Ajustar alturas de trabalho (cotovelo ±5–10 cm como referência para tarefas de precisão; use mesas elevatórias).
- Aproximar a carga do corpo e reduzir alcances >40–50 cm.
- Introduzir auxiliares de elevação/transferência (talhas, stackers, roletes, carros de apoio).
- Reconfigurar o layout para fluxos em U ou em linha reduzindo voltas e torções.
- Implementar rodízio e pausas ativas em tarefas de alta repetitividade.
- Normalizar embalagens com pegas e atrito adequado; evitar superfícies escorregadias.
- Fornecer ferramentas com pegas neutras e gatilhos de baixa força; manutenção preventiva.
- Estabelecer um procedimento de reporte precoce de sintomas e ajustar tarefas temporariamente.
- Validar melhorias com uma reavaliação (RULA/REBA/Strain Index) e comparar scores “antes/depois”.
Indicadores a acompanhar (mensal/trimestral)
- % de postos avaliados com método ergonómico;
- Nº de melhorias de engenharia implementadas;
- Taxa de absentismo por LMELT;
- Nº de queixas/sintomas reportados e tempo médio de resposta;
- Taxa de reincidência após regresso ao trabalho.
Referências essenciais (síntese)
ACT — Exposição a riscos biomecânicos e LMELThttps://portal.act.gov.pt/Pages/exposicao-riscos-biomecanicos-lesoes-musculosqueleticas.aspx
EU-OSHA — Work-related MSDs: prevalence, costs and demographics (relatório)https://osha.europa.eu/sites/default/files/Work-related_MSDs_prevalence_costs_and_demographics_in_the_EU_report.pdf
Lei n.º 102/2009 (SST) — versão consolidadahttps://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2009-56365341-106425840
DL n.º 330/93 — Movimentação manual de cargas (Diário da República)https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/330-1993-653125
ACT/EU-OSHA — Guia “Locais de trabalho saudáveis: Aliviar a carga”https://portal.act.gov.pt/AnexosPDF/Campanhas/2020/Locais%20de%20trabalho%20Saudaveis/Materiais%20EU-OSHA/HWC20_Guide_TE0120122PTN%20(4).pdf
ACT — Livro: Movimentação manual de cargas (síntese prática)https://portal.act.gov.pt/AnexosPDF/Documentação/Livros/Ergonomia/Movimentação%20manual%20de%20cargas_geral.pdf
OSHwiki (EU-OSHA) — Ferramentas observacionais para LMELThttps://oshwiki.osha.europa.eu/en/themes/observation-based-tools-assessment-risk-musculoskeletal-disorders